Minha vida é um pesadelo

Quando acordo, eu percebo: voltei para o delírio. É como um sonho recorrente, daqueles que tentam de lembrar de fazer alguma coisa importante, só que esta fantasia criada pela minha mente não é lembrete de nada. A não ser o lembrete de que eu sempre fui louca. Quando as pessoas me olhavam com aquela expressão de estranhamento enquanto eu me encolhia em um canto tentando disfarçar minhas alucinações com silêncio, todas já sabiam.



Agora eu entendo, eu que sempre fui diferente, finalmente descobri o motivo. Achei que eu ia me sentir melhor... Mas, acho que o que me falta é acertar a dose do remédio e pronto, tudo vai mudar e eu vou ser produtiva e alegre. Eu me lembro muito bem dos remédios fazendo efeito no meu organismo, e é isso que desejo do fundo do meu coração neste momento.

Eu acho que desenvolvi estas doenças porque passava muito tempo sozinha e não tinha com quem desabafar em casa quando era criança. Eu lembro que meus pais se separaram e eu tive que ser forte, porque minha mãe estava destruída. Meu irmão, por sua vez, se recolheu para o quarto. E eu tive que trabalhar minhas tristezas com as paredes dos 9 anos até os 17, quando tive uma conversa com meu irmão na praia sobre como eu sentia falta dos verões em família. Foi só isso. Até que tive depressão profunda com 18 anos e meio e comecei a ouvir vozes. Elas agitavam um pouco a monotonia, me irritavam, me zoavam e me desafiavam a pensar mais profundamente. Me acompanharam até os 22, quando finalmente li na wikipedia que existiam alucinações em todos os sentidos do corpo, tipo eu podia ver as pessoas falando o que elas não estavam falando.

Nesse meio tempo eu tive um filho com um rapaz irresponsável, troquei de faculdade 3 vezes e conclui um curso de cabeleireira. Ah, eu também fiquei boa no inglês! Mas o meu maior orgulho foi finalizar um livro de contos e inscrevê-lo no Prêmio Sesc 2021. Eu tenho muito receio sobre o futuro, eu sempre me foquei em manter as aparências de pessoa sã e bonita, porque assim muitas portas se abririam, eu pensava. Hoje me sinto perdida. Sei que muitos jovens neurotípicos também se sentem assim. Então não é nada com que se preocupar, é a sociedade mesmo. 

Manter a positividade e agradecer pelas facilidades que tenho... Espero que no mundo tenha um lugar para mim.

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